5.11.2006

Apropriação como DESVIO


Neste artigo, André Lemos amplia nossa percepção do que seja APROPRIAÇÃO TECNOLÓGICA.


"Podemos dizer que a cibercultura nasce pela apropriação tecnológica. (...)


A apropriação é assim, ao mesmo tempo, forma de utilização, aprendizagem e domínio técnico, mas também forma de desvio (deviance) em relação às instruções de uso, um espaço completado pelo usuário na lacuna não programada pelo produtor/inventor, ou mesmo pelas finalidades previstas inicialmente pelas instituições.


(...) De acordo com Schwach, é necessário deixar as portas abertas a um transdisciplinaridade em três níveis: a funcionalidade técnica, os mecanismos psicológicos de apropriação, e o fazer coletivo, sociológico.

De acordo com Perriault, o uso dos objetos tecnológicos não é apenas tributário das estratégias de empreendimentos de acordo com a objetividade da função do objeto, ou de acordo com uma racionalidade técnica intrínseca aos modos de usar (manuais técnicos). Sua hipótese é de que os “usuários têm uma estratégia de utilização dessas máquinas de comunicação"
[21]. A sociologia dos usos visa, assim, entender o modo pelo qual usamos os objetos técnicos no quotidiano, descrevendo uma perspectiva que flutua entre a etnometodologia e a psicologia. Talvez seja mais apropriado falar em astúcia dos usos, já que este termo, mais aberto ao imprevisto, escapa à idéia de “lógica”, como sustenta Perriault.

Sabemos, com De Certeau
[22], como os usuários inventam o quotidiano, como eles investem conteúdos simbólicos, imprimindo seus traços na mais banal ação do dia a dia. Não há uma lógica, mas antes uma dialógica complexa (Morin) entre os objetos, os usos e as obrigações funcionais destes mesmos objetos.

A apropriação tem sempre uma dimensão técnica (o treinamento técnico, a destreza na utilização do objeto) e uma outra simbólica (uma descarga subjetiva, o imaginário). [23]


Segundo Perriault haveria uma linhagem que uniria as máquinas de comunicação aos seus respectivos usos. Esta linhagem é marcada, em toda a história dos media, por um desejo de simulação. A cibercultura estaria, dessa forma, marcada pelas tecnologias da simulação, proporcionando o sentimento de descolamento do aqui e agora, do espaço e do tempo. As tecnologias do virtual seriam então um resultado desse desejo onde "o uso das máquinas de comunicação favorece a criação de redes de sociabilidade (...)". Sendo assim, ao analisar os usuários, devemos superar a perspectiva do uso correto ou não das máquinas de comunicação, marcados para sempre pelo estigma do consumidor passivo e envolvido por uma rede de estratégias dos produtores. Devemos vê-lo como agente. Hoje, se observarmos a dinâmica social da Internet, poderemos identificar, na evolução do uso das máquinas de comunicar, uma certa busca de tactilidade, reforçando ainda mais a apropriação social destas.

Como descrevemos em outro trabalho[26], a tactilidade social potencializada pela micro-eletrônica pode ser comprovada pelas inúmeras agregações sociais. Ela é fruto de uma utilização não programada das novas tecnologias, e não um projeto de instâncias superiores. Várias ferramentas disponíveis na Internet foram criadas por usuários de forma a potencializar o lado táctil das novas tecnologias. Assim, o expoente da racionalidade científico-militar transforma-se numa busca planetária por informação e contato."



[21]Perriault J., La Logique de L´Usage., Essais sur les Machines à Communiquer., Paris, Flammarion, 1989, p.13.

[22] Podemos ver o Minitel como fruto dessa apropriação social. O Minitel foi concebido como um anuário eletrônico. A partir de várias utilizações não previstas, como a comunicação entre usuários e o predomínio do uso erótico (no que ficou conhecido como Minitel Rose), o Minitel, de instrumento apolíneo transformou-se em ferramenta de agregação social e de práticas hedonistas. Ver Lemos, A., The Labyrinth of Minitel., in Shields, R. (ed). “Cultures of Internet”. Sage, Londres, 1996.

[23] A antropologia e sociologia começam a se interessar pelos usos da tecnologia no pós-guerra. Em 1965, P. Bourdieu mostra que o uso da máquina fotográfica não só era determinado através de suas possibilidades técnicas (maquínicas) mas também pelo meio de imersão. No mesmo sentido, Dell Hymes analisa o uso do computador (numa visão antropológica) notando que o dispositivo é muito mais um "symbole de forces ultérieures" do que um instrumento racional seguindo uma lógica simples. De acordo com Perriault, a compreensão desta lógica de usos dos objetos técnicos põe o homem, e não a máquina, no centro da investigação.

CYBERPUNK: APROPRIAÇÃO, DESVIO E DESPESA NA CIBERCULTURA
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/lemos/apropriacao.htm
André Lemos


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Um exemplo de apropriação tecnológica encontrado em um blog

[Quarta-feira, Julho 27, 2005] Mentiras e Verdades
Uma verdade que pode-se comprovar, é no hotmail. Se você mudar de pais no seu cadastro, digamos para os Estados Unidos, existem até tutoriais na net de como fazê-lo, o espaço passa de 2MB para 25MB instaneamente. Depois de aproximadamente 1 semana ele vai para 250MB.
http://www.zach.blogger.com.br/

2 comentários:

Grupo de Pesquisa em Educação Científica 2006 disse...

Olá, depois da discussão de 26/05, fiquei pensando sobre códigos e signos, em busca de um entendimento melhor encontrei um comentário de Saussure sobre signos: " A imagem acústica de um signo linguístico não é a palavra falada, ou seja o som material, mas a impressão psíquica deste som." A partir deste comentário fica claro como é extensa a abrangência do termo signo, enquanto o termo código se restringe a expressão de sinais e simbolos convencionados.

Anônimo disse...

Por que um signo pode ser um
iconico, simbolico ou indicial.
Os codigos sao signos simbolicos.
Mas nao entendi sua conclusao a respeito do que discutiamos em sala.

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